segunda-feira, 11 de abril de 2016

Flávio Damm — Passageiro do Preto & Branco

post original:
http://rioshow.oglobo.globo.com/exposicoes/galerias/flavio-damm-passageiro-do-preto--branco-7488.aspx

As 80 imagens, todas em preto e branco, que compõem a exposição do fotojornalista Flávio Damm, registradas entre 1946 e 2012, não passaram por edição e corte, seguindo o estilo do francês Henri Cartier-Bresson. 

Retrospectiva de Flávio Damm nos ensina a ver numa época marcada pelo forte poder das imagens, mas ainda frágil na capacidade de leitura delas

por LUISA DUARTE

Em cartaz na Caixa Cultural Rio de Janeiro, a exposição "Flávio Damm – Passageiro do Preto & Branco – Fotografias 1946-2012", apresenta 80 imagens de um dos mais experientes fotojornalistas do Brasil. Com curadoria do designer Felipe Taborda, a mostra reúne registros de mais de 65 anos de carreira do gaúcho Flávio Damm.

O gênero fotojornalismo é conhecido por sua capacidade de fazer da foto um instrumento de informação claro e objetivo. Como se a função primeira da fotografia, qual seja, retratar o mundo, estivesse atuando da maneira mais intensa possível. Ter 100% de "fidelidade" ao fato é impossível. Haverá sempre um olho a retratar aquilo, tornando a imagem, a um só tempo, registro factual e tradução de um olhar único.

No caso da mostra retrospectiva de Damm, o que se vê é um olhar que, sim, mira o registro cotidiano, em cidades ao redor do mundo, Salvador, Rio de Janeiro, Paris, Lisboa etc., mas que o faz deixando de maneira indelével a sua autoria. Percorrendo as 80 fotografias é possível notar situações recorrentes. Uma delas é fazer associações entre pontos diferentes nas imagens: a mão de alguém espalmada, virando contra a câmera, em um canto no alto, na mesma foto, há um cartaz que exibe quase a mesma cena da mão reproduzida; em outro trabalho temos uma praça, ao fundo um casal se abraçando, e em primeiro plano, à esquerda, dois pássaros se bicando (se beijando?). Recorrentes também são os caminhos, as estradas, pessoas e coisas em movimento. Tudo sempre fruto da busca pelo flagrante no momento certo, no instante decisivo, para que o jogo entre os vários elementos presentes na cena surja em sintonia, aconteça. 

Esta atenção de Damm quando fotografa é igualmente demandada do espectador. Somos levados a ver cada imagem com a atenção acesa.

Se desde a Grécia antiga os textos escritos são o lugar da transmissão de conhecimento, o que faz do Ocidente um lugar alfabetizado na capacidade de ler e interpretar textos, ainda somos muito precários no que tange a leitura de imagens. Vivemos em um mundo abarrotado delas, por todos os lados, em toda a parte, diariamente, mas somos ainda demasiadamente analfabetos em seus códigos, muitas vezes simplesmente não sabemos ler o que vemos. E daí a dificuldade em entender, interpretar, criticar. O contato com uma obra como a de Damm, virtuosa na técnica, sempre preto e branca e analógica, sem fazer uso de recursos digitais, nos leva a um estado de atenção que é um caminho para este necessário processo de alfabetização que falta ao Ocidente.


Tido como um discípulo de Cartier-Bresson (1908-2004), Damm tem em comum com o seminal fotógrafo francês a busca pelo momento decisivo, aquele em que tudo se reúne, por frações de segundos, e nos faz ver o que deixamos passar despercebido. Seus olhos são um tratado contra a preguiça do hábito que lambe tudo e amolece os sentidos. Dar vida ao mundo exterior nos colocando em estado de alerta para perceber as pequenas grandes belezas ao redor, poesias flagradas em meio a uma rua qualquer no meio de uma tarde (a luz aqui é sempre ambiente, nada é feito em estúdio), eis o presente ofertado pelo trabalho de Flávio Damm. Um capítulo importante de nossa História que nos ensina a ver em meio a uma época marcada pelo poder das imagens, mas que paradoxalmente ainda é tão frágil na sua capacidade de leitura das mesmas. Entrar em contato com a obra deste grande fotografo é um dos muitos passos possíveis na direção contrária desta ignorância.




O contato com uma obra como a de Damm nos leva a um estado de atenção que é um caminho para a alfabetização que falta ao Ocidente.




se liga na autoridade:
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=1781&cd_item=1&cd_idioma=28555

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