Após dezenas de filmes que retratam a ditadura militar e os efeitos do golpe nas gerações posteriores, esta trama aparece para abordar um período muito específico da história brasileira: os últimos meses do regime autoritário, em 1984, e o retorno às eleições diretas. Muitas pessoas celebravam a vitória da democracia, enquanto outras duvidavam dos candidatos presentes e da transformação efetiva da sociedade. É neste clima de ressaca e de desconfiança do futuro que se insere a narrativa do filme baiano.
Trata-se de um momento naturalista, agradável de assistir, porque confere tempo aos personagens para se expressarem sem freios. É o enquadramento que corre para buscar cada rosto, focando e desfocando, deslizando e parando quando for necessário. Ao condicionarem a imagem à espontaneidade dos adolescentes, os diretores Marília Hughes e Cláudio Marques compõem uma estética humanista, repleta de boas cenas que remetem ao improviso, ao prazer real da interação entre os atores.
Sem mostrar multidões, sem recorrer às cenas de manifestações ou confrontos armados, o filme consegue ilustrar dores e conflitos, como se a política (algo público, por definição) pudesse ser compreendida por suas consequências íntimas. Esta é uma história sobre revolta contra o sistema, mas desprovida de violência, uma obra sobre transgressão sem sexo nem drogas, uma história sobre eleições sem disputa política, sem guerra de poder. O mundo externo está sugerido na fala dos personagens, e retratado através do filtro paródico da televisão – com imagens de arquivo e uma única referência à violência policial, em um hilário comercial de calças jeans.
Rumo à conclusão, aliás, os diretores encontram suas melhores cenas, em seu cenário mais vigoroso. Uma grande usina abandonada serve como pano de fundo para pelo menos dois diferentes de catarse, sempre colocadas em paralelo com a situação política do Brasil. Não é evidente relatar a morte de Tancredo Neves através de uma festa entre amigos libertários, mas os cineastas conseguem essa proeza com a ajuda de uma bela fotografia e de uma sequência eficaz, em que o espaço gigantesco funciona como metáfora do vazio na vida daqueles jovens. O diálogo entre dois amigos, de costas para a tela, versando sobre foguetes e perspectivas de futuro, é de cortar o coração.
Depois da Chuva consegue ser um filme repleto de nuances sobre uma época de extremos, uma história doce sobre um tempo de violências. Isso é obtido graças à estética que valoriza o banal, e à direção de atores em busca composições cruas, pouco acadêmicas do elenco. Nos diálogos meios truncados de Caio, na câmera sempre colada à sua nuca, atravessando os cachos do seu cabelo, olhando os jovens com proximidade e interesse, o filme encontra um louvável tom de cumplicidade.
por Bruno Camelo
post original - http://www.adorocinema.com/filmes/filme-222838/criticas-adorocinema/

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