Quem nunca viu algum curta-metragem do diretor André Novais pode se surpreender com este primeiro longa-metragem. Os protagonistas são André, o irmão Renato, a mãe Maria José e o pai Norberto, interpretando personagens de mesmo nome, em uma história pessoal passada na casa do diretor. Mas este não é um documentário, afinal, a trama toma rumos cada vez mais fictícios, e o cineasta faz escolhas de enquadramento e edição impossíveis no documentário.
O cinema tem proposto diversas formas de hibridismo entre ficção e documentário, mas talvez essa seja a mais fluida e orgânica de todas. É difícil – e também desnecessário – determinar até que ponto aquela história de fato aconteceu, em que grau os personagens diferem das pessoas reais. A casa foi arrumada pela diretora de arte, ou todos os objetos pertenciam à família? Os pais realmente viveram uma crise conjugal, como nessa história? O relacionamento dos filhos com suas namoradas enfrenta os mesmos conflitos da trama? Todas as cenas foram encenadas para as câmeras, algum diálogo foi construído no roteiro? Pelo costume de ver os documentários afirmarem o seu caráter de “verdade” e as ficções tomarem sua distância com ela, o espectador pode ficar curioso para determinar limites, algo que o filme não pretende fornecer.
A maior surpresa diante de Ela Volta na Quinta, portanto, é o grau de autoexposição do diretor e da sua família. Não se trata de atores profissionais interpretando suas falas, apenas amadores em versões não idealizadas, sem maquiagem, em casas modestas banhadas por luzes fracas. Os personagens vestem roupas comuns, discutem sobre o almoço e sobre vídeos engraçados no YouTube. Os filhos são vistos nas camas com as namoradas, em poses que não buscam a beleza nem da composição, nem das pessoas. No instante em que pai e filho discutem na rua, o barulho dos carros e ônibus é tão forte que quase impede a compreensão do diálogo.
Por fim, atinge-se uma noção de intimidade e de humanismo raras no cinema autoral. No próprio festival de Brasília, onde este filme foi exibido, a maioria das obras fazia questão de chamar atenção à assinatura do autor, em construções únicas, herméticas, cheias de recursos (o preto e branco, os enquadramentos insólitos, as distorções no som, o recurso ao bizarro, ao fantástico). André Novais, ao contrário, constrói sua autoria pela subtração de filtros entre o público e o filme, permitindo ao espectador entrar em sua casa, olhar de perto sua mãe, seu pai, seu irmão. Na época em que a maioria dos filmes radicais aposta na fragmentação e na opacidade, Ela Volta na Quinta é de uma transparência comovente.
Filme visto no 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro de 2014
por Bruno Carmelo
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http://www.adorocinema.com/filmes/filme-230749/criticas-adorocinema/

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